http://luizfelipeponde.wordpress.com/2011/07/28/entrevista-de-ponde-para-a-veja-13-07-2011/
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Por que eu nunca me converteria (Ricardo Gondim)
Pois que vantagem há em suportar
açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês suportam o
sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus.
I Pe 2:20
I Pe 2:20
Se alguns frequentassem determinadas igrejas eles jamais se
converteriam ao cristianismo. Em certas instituições religiosas há
desprezo pelo pensar. Os que sentem necessidade de saber o porquê das
coisas e rejeitam a possibilidade de se sentirem indoutrinados, goela abaixo, sem
que tenham a oportunidade de argumentar, criam repulsa ao fenônemo
religioso que se alastra pelo Brasil. Muitos não se converteriam no
ambiente que diz: Creia porque estou dizendo; não especule, não questione, aceite apenas. Um
lugar onde se exige obediência cega, onde é proibido o exercício do bom
senso, pode crescer em membresia, ser bem sucedido financeiramente e
sofrer, inclusive, cooptação das forças políticas, mas jamais pode
considerar-se legitimamente evangélico. Se você foi a uma
dessas igrejas e não se converteu, parabéns. Você tem toda razão de
reagir como reagiu. Eu também não me converteria.
Igreja que apequena debate, que se volta para questiúnculas e enfatiza pormenores irrelevantes do tipo
mulher deve usar cabelo comprido ou curto? pode pintar as unhas com
esmalte vermelho, azul ou de cor nenhuma? tem permissão de usar calças
compridas? Além do debate em si ser ridículo, o mundo nunca mudará
através das rédeas curtas desse legalismo coercitivo, dessa demagogia
farisaica ou dessa piedade fundamentalista. E se existe um Deus
preocupado com tão intrincada rede de pode-não-pode, melhor
mesmo nem se aproximar dele. Como imaginar Jesus morrendo na cruz, e os
mártires da igreja adubando com seu sangue o solo de Roma para que a
pauta mais relevante dos seguidores de Jesus fosse essa?
Converter-se à fé se tornou crescentemente complicado nos ambientes
piegas, das frases prontas, dos chavões sovados e reciclados que jamais
favorecem a experiência numinosa do sagrado – na melhor das hipóteses, produzem alucinação.
A pressão do mercado apressa os pastores na busca por projeção. Esse
anseio gera comunidades simplistas. A complexidade da vida, com todos as
implicações que as escolhas trazem, não comportam respostas simplistas.
Um jargão preocupante se difundiu entre os neopentecostais: Está amarrado em nome de Jesus! Essa amarração pretendia
conter desde as investidas de Lúcifer às situações corriqueiras que nos
afligem como gripe, trânsito engarrafado e problemas na justiça.
(todavia, alguns divulgadores da frase não conseguiram evitar a cadeia)
Uma pitada do que acorre na enorme maioria das igrejas que se pretendem evangélicas dá ideia do grau de rejeição que elas podem gerar:
Todos a uma só voz digam: Amém.
Foi fraco ou não ouvi direito? Quero um sonoro Amém.
Todos, mais alto e pausado para afugentar o diabo, gritem Gloria a Deus.
Vou orar para que Deus coloque um círculo de anjos num raio de cinco quilômetros e o diabo não vai se aproximar.
Diga para quem está do seu lado: o ambiente está limpo, agora podemos louvar a Deus.
Evangelho é simples sem carecer desses artifícios simplistas e toscos.
Ora, quem se sente alegre não precisa gritar para potencializar sua
felicidade; e o triste não mudará seu estado melancólico por meio de
catarse temporária. Culto a Deus não depende de que todas as pessoas
sorriam. Não há erro em estar abatido. Higienizar o ambiente para que o
diabo não perturbe é tão medieval que chega a constranger. Essas
técnicas de manipulação de massas se evidenciam em cada louvorzão,
em cada conferência profética em cada congresso pentecostal. Tal
suspensão temporária do senso crítico causa espécie por vulnerabilizar o
povo a inescrupulosos mercadejadores do sagrado. Em muitos
ajuntamentos, o pobre é extorquido até o último centavo do que possui
nos bolsos ou na conta bancária. O resultado é que o Brasil já tem
líderes de igrejas donos de aviões a jato, bancos, redes de rádio e
televisão; alguns com cacife para eleger senadores, negociar comissões
no Congresso e apontar o candidato à vice presidência de República.
Nesse embalo, o projeto teocrático deixa de parecer impossível e, claro,
preocupa.
A pergunta é inevitável: Então, por quais cargas d’água você se converteu e por que eu deveria me converter?
Converti-me porque a mensagem que me apresentaram soou racional e
lógica o suficiente para satisfazer o meu intelecto e poderosa
espiritualmente para impactar a minha vida. Eu cri invadido pela Graça. O
Evangelho também indicou o caminho para algumas perguntas que eu já
guardava: Deus? Bem? Maldade? Vida? Quem sou eu? Por que estou aqui?
Se na filosofia naturalista e no cientifismo moderno, eu era apenas
um acidente cósmico, se no sistema oriental hindu e budista, mera
emanação do todo divino – panteísmo – e se no espiritismo kardecista,
espírito aprisionado a um corpo, cumprindo a lei do karma, a mensagem de
Jesus me soou contundente, bonita e nobre: Eu sou a imagem de Deus que é
amor. Ele me chamou de amigo, irmão, filho.
A resposta cristã para estupros, tráfico de drogas, clínicas
psiquiátricas abarrotadas, embora não seja uniforme, mas cheia de
controversias, me bastou. Quanto mais me aprofundei nas questões da
justiça e da denúncia do pecado sistêmico que perpetua a miséria, eu vi
que o número de opiniões e era proporcional ao número de denominações e
escolas teológica. Os apontamentos cristãos para a solução do maior de
todos os enígmas: Por que sofre o justo? eram conflitantes.
Contudo, nesse emaranhado de argumentos a mensagem do Sermão do Monte me
abalou. As palavras ali registradas me pareceram as mais humanas e mais
desafiadoras que eu lera. Se no conceito oriental o mal e o bem se
fundem numa só realidade, se no conceito espírita o mal se liga ao
aperfeiçoamento, no que entendi do ensino de Jesus, o mal extrapola
todas as abordagens. Ele tem que ser combatido. O mal decorre da
liberdade. Fomos criados por Deus para a liberdade. Muitas vezes nos
valemos dessa vocação para destruir. O mal é um acinte, jamais tolerado
ou compactuado por Deus que interpela, sem cessar, homens e mulheres
para enfrentarem todas as formas de antivida como suas mãos, pés e boca.
Deus é amor. Bondade existe no universo não como acidente, mas como
intenção de um Deus eternamente amoroso e justo. João afirmou em sua
epístola universal que todo aquele que ama é nascido de Deus.
No amor ao pobre, não no cerimonialismo que exalta a liturgia,
encontramos o rosto de Deus. No amor ao excluído, não no dogmatismo que
glorifica a doutrina, somos tocados pelo divino. No amor ao estranho – o
estrangeiro – não no institucionalismo, nos colocamos no caminho da
verdade.
Converti-me porque tive a felicidade de ser anterior ao besteirol que se alastrou no movimento evangélico brasileiro nas últimas décadas; converti-me
porque cri no Deus que amou o ser humano de tal meneira que não hesitou
em continuar querendo bem mesmo diante do sacrifício de seu Unigênito –
Jesus Cristo. Continuo no caminho, apesar de não ter alcançado resposta
final e decisiva para todos os meus questionamentos – e isso é muito
bom. Sinto-me ainda devedor ao projeto de vida que ele propôs. Continuo a
desejá-lo, sabendo que nesse caminho encontro vida eterna.
Soli Deo Gloria
http://www.ricardogondim.com.br/estudos/por-que-eu-nunca-me-converteria/
sexta-feira, 5 de julho de 2013
O operário em construção
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
(Vinícius de Moraes)
http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/article.php3?id_article=206
terça-feira, 2 de julho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
Aprender (Tanlan)
Coloque a culpa na história
Nos erros que o passado cometeu
Coloque a culpa nos reis de agora
Coloque a culpa no estado
Ou mesmo em tudo que é religião
Coloque a culpa no caos do acaso
Tanta gente já morreu
Sem nunca viver
E a razão já se perdeu
Sem nunca saber
Quando vamos aceitar
Todos temos tanto pra melhorar
Quando vamos entender
Antes de mudar
Temos que aprender
Alguém me mostre um alívio
Vivemos numa grande confusão
Como acabar com um problema antigo
Não sabemos nem viver
Nada é o que parece ser
Não sabemos nem porque
Matar ou morrrer
Quando vamos aceitar
Todos temos tanto pra melhorar
Quando vamos entender
Antes de mudar
Temos que aprender a amar
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